segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mães.





Mães...

Elas eram amigas de faculdade. Desde o primeiro dia de aula do curso de Publicidade, evidenciaram uma empatia nunca antes sentida. Trocaram algumas meias palavras, mas os risos se foram presentes em quinze minutos de conversa. Falaram sobre tudo, e nada. Amenidades apenas. Aline tinha um cheiro bom. Pele morena e negros olhos, muito incógnitos. Indecifráveis demais para Isadora. E era isso que a prendia aquela mulher, a cada palavra dita. Isadora tinha por sina, querer o mais enigmático, o mais complexo. E Aline tinha uma complexidade fora do comum. Tornaram-se amigas. Mais que amigas. Tornaram-se namoradas. Incontáveis foram as vezes em que pensaram em desistir de tudo. Não por elas. Mas pelas circunstâncias impostas pela própria vida. Acontece que o amor que as unia era maior do que todo e qualquer contratempo. E bastavam se olhar, toda a certeza se reafirmava. Se amavam. Ponto final. Entre idas e vindas, brigas e pazes, permaneceram juntas durante os quatro anos da faculdade. Lá, se conheceram, noivaram e casaram. Cerimônia simples. Melhores amigos e alguns familiares que aceitavam a relação. O primeiro ano de casadas, as trouxe a dura realidade de um lar. Responsabilidades, trabalho, contas, aluguel, condomínio. Tudo sempre resolvido da melhor maneira possível. Isso é mínimo. É corriqueiro. As diferenças de personalidade é que pesavam mais. Discordavam em muitos aspectos. Uma gostava de vodka a outra de vinho. Uma gostava de bares, e a outra de cinema. Enquanto Aline amava estar rodeada de amigos, Isadora impreterivelmente preferia um programa mais pessoal, intimo. Uma de touro e a outra de gêmeos. Contudo, toda e qualquer diferença era resolvida enquanto deitadas sobre a cama, uma com uma revista de moda e a outra com seu computador. Elas se amavam demais pra permitir que diferenças as abalassem.
Mas sempre foram apenas elas. Aprendendo a cada dia viver com suas respectivas diferenças. E a maior delas, era a tal Maternidade. Nunca antes discutida...

Até que certo dia, estavam num Shopping Center comprando alguns itens para casa. Isadora desatenta a sua volta, não havia percebido que Aline brincava com uma criançinha em um dos corredores da loja de variedades. Aline parecia feliz demais com aquela proximidade. Era um garotinho que não devia ter mais que quatro anos. Ela se impressionou com a esperteza do menino. Sorriu, gargalhou, se divertiu. Enquanto Isadora ainda mantinha sua atenção presa nos preços das toalhas de mesa. No trajeto de volta para casa, Aline estava calada. Envolta em pensamentos unicamente seus. Trazia consigo um riso no canto dos lábios. Logo interrompido por uma feição de medo. Medo de que sua idéia se materializasse em algo real. Talvez não por ela, mas por Isadora. A idéia em questão nunca fora discutida entre elas, em seis anos de convivência. A verdade é que Aline sempre tivera o desejo de ser mãe. Em todo esse tempo, eram apenas elas, num vago e silencioso apartamento. Nunca cogitaram a idéia de juntas, criarem uma criança. Vinda por intermédio de adoção ou por vias naturais, pois Isadora sempre ignorou o assunto. O silêncio de Aline se tornou cada vez mais ensurdecedor. Estava presa demais em seus próprios pensamentos.

Nada mais foi dito durante a volta pra casa. Nem dentro do elevador. Nem no corredor. Nem na sala, na cozinha. Isadora encaminhou-se para a varanda, enquanto Aline sentada na cama desabotoava os botões da blusa. Estavam ainda caladas. Pensativas. Isadora então se põe em frente a ela, com joelhos postos no chão. Então olhou para aquela mulher. Que um dia jurou amar e apoiar o resto dos seus dias. E sorriu docemente.

-- Se você quiser, eu também quero.
-- Se eu quiser...
--Aline, eu conheço você por inteira, como ninguém, e sei do seu sonho em ser mãe. Eu ví você e aquele garoto. Seus olhos brilham quando está perto de uma criança. E meu coração se enche de alegria e medo. Nunca me achei boa o bastante para maternidade. Falo por mim. Nunca pensem em gerar uma vida. Ou manter uma sob minha responsabilidade. – após um breve suspiro, e um abrir e fechar de olhos, continuou – Mas, eu adoraria viver tudo isso com você. Agora tudo mudou. Eu quero ser mãe. Mãe de um filho seu.
-- Amor, por que isso agora? – disse confusa e com lágrimas.
-- Por que eu tenho a certeza de que é isso que falta pra você ser definitivamente feliz. E eu quero te dar essa felicidade. Além do mais eu acho essa casa grande demais. Silênciosa demais. Sinto que está mais do que na hora, de dar mais um largo passo. Eu quero ter um filho com você.
-- Já te disse que você é a melhor mulher do mundo?

E assim aconteceu. Alimentaram dia a dia o desejo de serem mães. Aline queria sentir todas as dores do parto, queria ver sua barriga crescer, queria sentir desejos e enjôos. Isadora certamente adorou a idéia de acompanhar esse processo. E aquela criança também seria sua. Quando a gravidez foi enfim confirmada, a casa se fez em festa. E assim foram os nove meses da gestação. Montaram um lindo quarto para esperar Sophia. Nome minucioso escolhido por ambas. Isadora curtiu deliciosamente todas as vezes que acordara em plena madrugada pra satisfazer os desejos de grávida de sua mulher. A relação entre as duas ficou mais intensa. Elas se amavam mais. Partilhavam mais das coisas, dos momentos. Dos mínimos momentos. Dos detalhes. Das cores do quarto de bebê. Das roupinhas compradas cuidadosamente. Estavam mais unidas.
Então Sophia veio ao mundo. Linda. Moreninha. Cabelos bem pretinhos, e trazia consigo os olhos expressivos da mãe. Era muito chorosa também. As madrugadas ficaram curtas, os dias longos. Isadora e Aline se revezavam pra colocá-la pra dormir. As horas da mamadeira. A troca de fraldas. Trabalhavam otimamente bem em equipe. Cansativo, certamente. Mas muitíssimo prazeroso. A casa antes tão silenciosa agora trazia o mais melodioso choro infantil. Tão organizada agora expunha fraldas e mamadeiras espalhadas pela estante, pela mesa. Depois vieram os brinquedos, as bonecas, os ursos de pelúcia. Sophia crescia. Acompanharam os primeiros passos. O primeiro dente. As primerias palavras. A palavra "mamãe" tão esperada. Juntas levavam Sophia ao pediatra. Ao primeiro dia na escolinha. Ao balé e a natação.
Eram as mães mais felizes do mundo. Agora tinha um motivo maior do que qualquer outro, para permanecerem juntas pra sempre. Agora, deixaram de serem apenas elas, pra ser uma Família. Sem diferenças, uma família como qualquer outra.


3 comentários:

Rapá, tu tem alguma coisa pra falar? Conversa ai ó... é nesse quadradinho branco. Aceito qualquer tipo de coméntário. Os construtivos, os destrutivos, os engraçados, os sérios. Se for em dinheiro, melhor ainda!